Crédito de Carbono como Estratégia de Fortalecimento no Agronegócio

Mecanismos, regulação e o potencial das práticas sustentáveis como motores de competitividade e rentabilidade no campo

RESENHAS TÉCNICAS

Fabrício Marques, Henrique Souza, Maria Clara.

6/6/20262 min ler

Matéria baseada na resenha técnica escrita pela aluna Júlia de Abreu Bitencourt Faria.

As mudanças climáticas representam um dos maiores desafios contemporâneos da atualidade devido aos seus severos impactos ambientais, sociais e econômicos. Alterações de longo prazo em padrões de temperatura, ventos e chuvas provocadas por ações antrópicas afetam diretamente o agronegócio, que depende dessas condições para a produção agrícola e pecuária. Como consequência, essas oscilações reduzem a produtividade, elevam custos operacionais e geram insegurança alimentar, além de comprometerem a disponibilidade de recursos naturais vitais, como a água e o solo fértil. Em contrapartida, o agronegócio desponta como um agente estratégico capaz de mitigar tais danos através da adoção de soluções sustentáveis que equilibram o planeta e expandem a competitividade setorial.

O Mecanismo Global do Crédito de Carbono.

Diante da necessidade urgente de frear o aquecimento global intensificado pela liberação massiva de dióxido de carbono, o crédito de carbono consolidou-se como um mecanismo financeiro e ambiental de incentivo global. Este instrumento ganhou projeção a partir do Protocolo de Quioto em 1997 e amadureceu significativamente com o Acordo de Paris em 2015, permitindo que indivíduos, governos e empresas compensem suas pegadas ecológicas. No mercado, cada crédito de carbono corresponde formalmente a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente que deixou de ser emitida. Os preços e a comercialização desses ativos dependem diretamente de fatores como o volume de demanda, o tipo de atividade geradora da redução e o ano de sua geração, comercialmente denominado como safra do crédito.

A Divisão entre os Mercados Regulado e Voluntário.

O ambiente de negociação desse ecossistema segmenta-se entre o Mercado Regulado e o Mercado Voluntário (VCM). No mercado regulado, os agentes operam compulsoriamente sob sistemas estruturados conhecidos como ETS (Emissions Trading System), nos quais participantes que emitem abaixo de suas metas comercializam suas cotas excedentes com aqueles que estouraram o teto permitido. Já no mercado voluntário, as transações ocorrem por iniciativa própria de organizações que desejam certificar seus compromissos socioambientais. Para transitar por esses mercados, os projetos percorrem um ciclo detalhado que envolve estudos de viabilidade no design do projeto, processos rigorosos de Monitoramento, Relatório e Verificação (MRV) conduzidos por entidades independentes, emissão, transação por bolsas ou intermediários e, finalmente, a aposentadoria do crédito, impedindo que ele seja comercializado novamente.

A Agenda do Carbono e a Legislação no Brasil.

O Brasil ocupa uma posição de liderança estratégica global nesse cenário por possuir um vasto potencial de captura de emissões por meio de soluções baseadas na natureza, com forte predomínio de projetos de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). No âmbito institucional, o país avançou com a aprovação da Lei nº 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) para estabelecer tetos regulados a empresas de grande porte. Embora o sistema nacional ainda passe por etapas de regulamentação e as empresas atuem majoritariamente sob compromissos voluntários de reputação, o governo brasileiro adota uma postura rígida ao defender que apenas atividades florestais de remoção direta, como o reflorestamento, sejam elegíveis no mercado regulado, buscando blindar a governança e a credibilidade dos projetos nacionais no exterior.

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