O Dilema do Café: Vale a Pena Plantar ou Arrendar Diante dos Altos Custos do Crédito?

Uma análise técnica de viabilidade econômica que destrincha as melhores estratégias de investimento e o peso do custo do capital no Sul de Minas Gerais.

RESENHAS TÉCNICAS

Fabrício Marques, Henrique Souza, Maria Clara.

7/10/20263 min ler

Matéria baseada na resenha técnica escrita pelo aluno Inácio Abrantes Perrupato

O café consolidou-se nos últimos anos como uma commodity altamente valiosa, impulsionando a expansão contínua da cafeicultura brasileira, que atingiu uma área total de 2,25 milhões de hectares cultivados em 2024, além de registrar mais de 344 mil hectares de novas lavouras em formação. Esse forte apetite produtivo é sustentado pelo dinamismo das exportações, que alcançaram a marca histórica de 50,5 milhões de sacas enviadas ao exterior, gerando uma receita recorde de US$ 12,3 bilhões de dólares em 2024, um crescimento expressivo de 52,6% em comparação ao ano de 2023. Em um ambiente marcado por preços valorizados e demanda internacional aquecida projetada pelo USDA, torna-se imperativo avaliar, por meio de simulações financeiras rigorosas, quais estratégias de investimento realmente se pagam e quais os fatores determinantes para o sucesso econômico do cafeicultor.

Modelagem das Estratégias e as Premissas de Custo.

Para destrinchar a viabilidade real do negócio, a análise simulou cinco estratégias distintas de investimento aplicadas a um modelo de propriedade média de 30 hectares no Sul de Minas Gerais, considerando uma produtividade padrão de 35 sacas por hectare ao ano e um tempo de maturação técnica de dois anos e meio até a primeira colheita relevante. As alternativas avaliadas abrangeram desde a compra de terra nua com formação da lavoura do zero até a aquisição de fazendas prontas de "porteira fechada", passando pelo arrendamento de áreas de terceiros e o plantio em terras já pertencentes ao investidor. O grande desafio analítico reside no confronto das taxas financeiras de mercado, onde o custo do financiamento foi atrelado à taxa SELIC vigente de 14,25% ao ano, confrontando uma Taxa Mínima de Atratividade (TMA) de 11% ao ano, adotada como o custo de oportunidade do capital para o desconto do fluxo de caixa ao longo de um horizonte de vinte anos..

A Inviabilidade dos Modelos de Alta Demanda de Capital.

Os resultados das simulações numéricas revelam que as estratégias que exigem desembolsos massivos para a aquisição de ativos imobiliários enfrentam sérias restrições para se pagar dentro do horizonte estipulado. A primeira simulação, focada na compra de terra nua e plantio do zero com investimento total de R$ 5,1 milhões de reais, apresentou Valor Presente Líquido (VPL) negativo em todas as doze combinações de preços e financiamentos testadas, exigindo um preço de saca proibitivo, acima de R$ 1.812 reais, para atingir o break-even com capital próprio. De modo semelhante, a estratégia baseada na compra da propriedade já pronta por R$ 6 milhões de reais eliminou o tempo de formação de lavoura, mas só alcançou viabilidade econômica no cenário ultra-otimista de R$ 1.800 reais por saca operando com 100% de capital próprio, gerando um VPL positivo de R$ 1,13 milhão de reais e um período de payback de seis anos.

A Atratividade Financeira do Arrendamento e da Terra Própria.

Por outro lado, os projetos que evitam o alto desembolso inicial com a compra do solo apresentam indicadores de rentabilidade muito mais promissores e seguros para o investidor. Ao reduzir o aporte inicial para R$ 1,5 milhão de reais focado apenas no plantio, o modelo de arrendamento de terceiros com escala de pagamentos gradativos mostrou-se viável a partir de preços moderados, atingindo um VPL positivo de R$ 650 mil reais no patamar de R$ 1.500 reais por saca com recursos próprios. A melhor performance de todas, contudo, pertence ao plantio em terra que o investidor já possui; apresentando o menor break-even geral de R$ 1.199 reais por saca, essa estratégia gerou retornos positivos mesmo no menor preço de venda testado e foi a única capaz de resistir e dar lucro sob condições de 100% de financiamento bancário a partir de R$ 1.500 reais a saca.

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