Safra Recorde, Qualidade Ameaçada: Os Desafios do Café Brasileiro Diante do Clima em 2026
Como o excesso de chuvas na colheita e a maturação desuniforme impactaram a qualidade dos grãos e a rentabilidade do cafeicultor.
RESENHAS TÉCNICAS
Fabrício Marques, Henrique Souza, Maria Clara.
8/24/20262 min ler


Matéria baseada na resenha técnica escrita pelo aluno Thiago Lopes Mandelik
Após anos de geadas e secas que reduziram os estoques globais e elevaram os preços da saca acima dos R$ 2.000, o mercado viveu uma forte expectativa de recuperação para o ano de 2026, com projeções do USDA apontando para uma safra recorde de 71,9 milhões de sacas produzidas no Brasil. No entanto, o otimismo produtivo esbarrou em uma dura verdade do campo: alto volume colhido não garante qualidade na xícara. Conforme alerta o boletim técnico da EPAMIG, fatores climáticos adversos e o excesso de umidade durante as etapas de colheita e secagem prejudicam drasticamente o produto final, provocando fermentações indesejadas e atrasando os trabalhos na lavoura.
Clima Atípico e Atraso nos Trabalhos de Campo.
A alteração no padrão de chuvas no meio do ano de 2026 desorganizou o cronograma das principais regiões produtoras do país, especialmente o Sul Mineiro e o Cerrado Mineiro. Dados do Sismet Cooxupé e da consultoria Safras e Mercado apontaram que a colheita no início de agosto atingiu 84%, um ritmo consideravelmente atrasado em relação à média histórica de 90% para o período. Esse volume atípico de precipitação decorreu da passagem de frentes frias associadas a zonas de baixa pressão entre as regiões Sul e Sudeste. Para agravar o quadro técnico, a variabilidade hídrica ao longo da fase de enchimento dos grãos resultou em cerca de duas a três floradas distintas, provocando uma marcante desuniformidade na maturação dos cafezais.
Gargalos na Colheita e os Riscos da Secagem.
A colheita realizada predominantemente por derriça, que retira todos os frutos do cafeeiro de uma só vez, encontrou um cenário altamente complexo em 2026 devido ao desencontro no amadurecimento. Enquanto o ideal agronômico recomenda iniciar a colheita com 90% de frutos maduros, o atraso provocado pelas chuvas fez com que muitos grãos passassem do ponto correto e secassem no próprio pé, enquanto outros permaneciam totalmente verdes. Na etapa de pós-colheita, a recomendação da Embrapa de iniciar a secagem imediatamente esbarrou em constantes ameaças de chuva e sereno. Sem infraestrutura de lonas com vedação perfeita para cobrir as leiras em todas as propriedades, a alta umidade acelerou processos de fermentação indesejada, comprometendo a integridade dos lotes.
Acúmulo de Defeitos e Deterioração da Xícara.
O impacto das adversidades climáticas refletiu-se diretamente no aumento dos defeitos intrínsecos e extrínsecos das amostras de café, com destaque para a alta incidência de grãos verdes e grãos ardidos. Conforme dados de classificação da Rehagro, a presença de apenas dois grãos ardidos já equivale à perda de um ponto na pontuação de equivalência do lote. Além disso, relatórios do Itaú BBA e análises da Cooxupé destacam que as chuvas provocaram a queda de frutos no chão, gerando um contato com o solo que degrada a qualidade intrínseca do produto. Na bebida final, segundo consultorias técnicas e estudos acadêmicos, essa safra apresentou notas mais ácidas, azedas e fermentadas, levando torrefações a estenderem o tempo de torra para perfis mais escuros na tentativa de mascarar os defeitos sensoriais.
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